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quarta-feira, 28 de maio de 2014

[desenho] Demolidor (Daredevil)

Demolidor - O homem sem medo (fonte:?)
Como vocês já devem ter percebido pelo post anterior, eu sempre gostei de desenhar, mas andava bastante "parado". Ontem à noite lancei um desafio a mim mesmo: desenhar o Demolidor da imagem acima. Só pra ver se eu ainda conseguiria. Dizem que a gente nunca esquece como é andar de bicicleta. Será que com desenho isso também funciona?

terça-feira, 27 de maio de 2014

Desenhos Antigos


Alguns dos meus desenhos antigos, feitos entre 1995 e 1997. Foram todos feitos com recurso apenas a um lápis 2B (bom, mais de um, de facto). A técnica é simples: "cópia a mão livre". Ou seja, mantinha uma imagem ao lado, normalmente uma imagem colorida, e reproduzia, da melhor maneira possível, em uma folha em branco. Não foi utilizado nenhum recurso "facilitador" como espelhos e o diabo a quatro. Só meus olhos. rs

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Fluviário de Mora

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Esta é uma das fotografias que tirei numa visita recente ao Fluviário de Mora. O fluviário é moderno (inaugurado em 2007), bem cuidado, tem exposições, actividades, etc. Fica em Mora (obviamente), que é um concelho muito bonito, no Alentejo. É um passeio que vale a pena.

domingo, 18 de maio de 2014

[opinião] O Alienista Alienado

Caricatura de Machado de Assis. Fonte: Pata do Guaxinim


Patrícia Secco tornou-se o centro de uma pequena celeuma, por conta de um projecto em que obras clássicas foram “adaptadas”, notadamente “O Alienista” de Machado de Assis, mas também “A Pata da Gazela", de José de Alencar.

Ao que consta, e tal é, em princípio, a causa maior da indignação (até um abaixo assinado deu origem), as alterações visam trazer o texto para uma linguagem mais próxima da actual. Ou seja, palavras em desuso foram trocadas por outras mais “modernas”, entre outras alterações, como pontuação, construções, etc.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

As Batalhas do Castelo



Fechou o livro, apagou a luz e deitou-se de costas. Cruzou os braços atrás da cabeça e ficou a observar o tecto do seu quarto, agora iluminado apenas pela tímida claridade que emanava da rua através da janela aberta. Era irregular, feito de finas ripas pintadas de bege, mais tinta que madeira, graças aos cupins que, se se concentrasse, podia ouvir a mastigar noite adentro.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

[poesia] 1 + 1 = 1

Sou um
Grito, esperneio, choro
Nada sei
E também sou outro
Que nunca se mostra
Onde estás?
Eu agarro o lápis
Mas nada escrevo
Preciso dele
É ele o guia
E quando se cala,
O branco faz-se eterno.
Se sonhasse, diria que dorme
Mas se penso, quem pensa é ele
Assusto-me! Tenho uma ideia
Uma ideia dele
E escrevo feito louco
Porque o outro não se cala
Não sei de onde vêm as ideias
Ele não me diz
Mas quando começa, já não para.
Grito, esperneio, choro
Meus dedos tropeçam
Escrever é rastejar na lama
A imaginação? Tem asas
Pare!
Não sou eu quem agarra o lápis?
Mas ele não obedece
Apenas sente
Respira.
Sonha.


Arapucas Literárias: Divulgação no Exterior


Todo escritor sabe que para ser lido, é preciso que o leitor saiba que ele, e sua obra, existem. Mais, é preciso que o leitor seja regularmente lembrado disso. A divulgação torna-se uma necessidade. Mais.
É obrigatória.

Essa obrigatoriedade, aliada à concorrência acirrada que existe no mundo literário brasileiro, onde há muito mais escritores do que leitores para os consumir, cria um terreno fértil para diversos tipos de armadilhas. 

Algum tempo atrás uma amiga pediu-me para dar uma opinião sobre um convite, feito a um escritor que ela conhece, para fazer divulgação no exterior.

No caso específico, a divulgação seria feita em um evento literário em Itália, através de um catálogo, onde constaria a foto e o nome dos autores que aceitassem participar. Para participar era fácil, bastava pagar $70 (setenta dólares).

A minha resposta à questão “vale a pena?” foi bastante fácil: Não. De forma nenhuma. Nem pensar.

Cada caso é um caso, claro. Mas em 99.9999% dos casos, divulgação no exterior é um péssimo negócio para escritores.

Qual a função da divulgação? Divulgar é dar a conhecer para o maior número de pessoas possível.
Qual a função de um evento literário? Vender livros.

As editoras não estão lá para dar a conhecer seus autores. Elas estão lá para vender livros. Dos seus autores. Autores que o público já conhece. Elas usam o evento para aproximar os autores do público. Mas a variável mais importante aqui é esta: público. Eles vão a um evento literário para falar com seus autores preferidos, para comprar os livros que estão na sua lista, que por acaso fizeram ainda antes de sair de casa. Pouquíssimas pessoas vão a um evento literário para “descobrir novidades”. Isso destrói qualquer possibilidade de sucesso, em termos de divulgação, para autores desconhecidos.

Você, escritor desconhecido, não faz parte dos planos do público internacional. Eles não te conhecem. Eles não querem te conhecer. Isso é verdade no Brasil e é ainda mais verdade fora do Brasil.

Outro aspecto importante de eventos literários, principalmente as feiras, é que normalmente existe um evento interno destinado exclusivamente às editoras. É um espaço para negociar a compra de direitos de publicação de obras de autores internacionais. Chegam-se a fazer verdadeiros leilões, em que as melhores propostas serão as contempladas com contractos de publicação. 

Você, escritor desconhecido, não faz parte dos planos das editoras internacionais. Elas não te conhecem. Elas não querem te conhecer. Aliás, isso também é verdade no Brasil. Se as editoras quisessem você, você não estaria tentado a aceitar divulgar sua obra fora do Brasil, porque a sua editora, com os direitos de publicação, estaria tratando disso.

Há muita gente com propostas para divulgar a obra de terceiros no exterior. A ideia que passam é de que querem levar a literatura brasileira para o mundo. Infelizmente, são pessoas ingénuas, que não perceberam ainda que esse não é o caminho. Ainda pior é que muitas estão agindo de má fé.

E é muito fácil enganar alguém quando esse alguém tem poucas possibilidades de verificar a veracidade dos factos. E como é fácil burlar pela internet, com fotografias, perfis de redes sociais, entidades e eventos falsos, etc. Há verdadeiros profissionais, no Brasil, em enganar escritores desconhecidos.

Por isso, abra bem os olhos. Se te convidarem para divulgar seu trabalho no exterior, corra. Muito. Porque é uma cilada.

domingo, 11 de maio de 2014

[Opinião] Noé (Noah)


Com vontade de assistir alguma coisa, sem muitas opções do meu agrado, optamos por assistir ao filme “Noah” (Noé).

O que eu posso dizer sobre o filme que não passe muito para o lado do “Spoiler”? 
Para já, posso dizer que o que quer que eu diga, é apenas uma opinião pessoal, sem nenhum tipo de conhecimento mais aprofundado sobre cinema ou actuações. Esteja avisado ;)

Como você pode imaginar (ou não), o filme é uma adaptação da história de Noé, contada no livro do Génesis. E a história, de certa forma, é bastante “fiel” aos acontecimentos narrados, com algumas diferenças, claro, principalmente no que concerne ao papel das “mulheres”, mas também sobre quem estava na Arca e algum “enchimento” com relação a factos que são mencionados apenas superficialmente, na Bíblia.

É um filme que se pode classificar de “fantástico”, no sentido em que há criaturas/eventos fantásticos, a menos que você acredite que o antigo testamento da bíblia cristã é uma narrativa historicamente fiel da criação do mundo. Para mim é pura fantasia. 

A história, no filme, assume contornos muito estranhos, para quem conhece as versões bíblicas. Para já, há uma ênfase na questão “ambiental” que, propositadamente ou não, faz frente ao motivo bíblico para o dilúvio, que também está presente no filme (e de maneira bastante inquietante, na minha opinião), que é a da maldade humana. E a questão ambiental, no filme, está fortemente ligada, ainda que de maneira implícita, ao uso inapropriado da tecnologia.

De certa maneira, tive uma nítida sensação “Mad Max” com esse filme. Um mundo degenerado, decadente, privado de sua “fonte de energia”, onde a violência humana assume proporções verdadeiramente horripilantes.

No filme, o Herói, Noé, está muito muito longe de ser a personagem que a história bíblica nos mostra. A imagem que eu coloquei na abertura, com um Noé segurando um Machado, pode lhe dar uma indicação de que ele está longe, muito longe, do ideal cristão. E está. Está muito mais próximo de uma pessoa comum, um tanto fanática, talvez. Algo que faria sentido 5000 anos atrás, por exemplo, mas que já não é bem visto em nossos dias.

Aliás, apesar da presença de vários outros personagens, como Matusalém, interpretado por Antonhy Hopkins, de forma maravilhosa, como sempre, o único personagem bem construído, na história, é mesmo Noé. Bom, o nome do filme é esse mesmo.

Em termos de actuação, Russell Crowe está muito bem nesse filme. Gostei imenso de sua atuação. Mas pronto, eu sou fácil de agradar... 

Mas não posso dizer o mesmo de outros actores. Não que as actuações sejam fracas. De modo geral não são. Mas pareceram-me francamente anacrónicas. Sim, à excepção de Russell e possivelmente Hopkins, os outros actores, em suas interpretações, não parecem nem um pouco com personagens bíblicos à beira da destruição do mundo. 

Isso de deve, um pouco, ou talvez muito, a algo que me pareceu completamente fora de lugar no filme, ainda que pertinente. Trata-se da parte “romântica” do filme. Foi ali colocada para justificar parte da história, mas não me pareceu que tenha funcionado. Se separássemos essa parte do resto do filme, o resto do filme teria ficado muito mais sombrio (e interessante) e esta parte poderia muito bem ser uma história que aconteceria em uma escola secundária de subúrbio americana. Quase nem precisavam trocar de figurinos... Mas se calhar isso sou só eu.

De resto, o filme tem cenas marcantes e até perturbadoras. Fosse mais bem explorado, esse lado negro da história, o filme teria sido fenomenal. Mas eu percebo que há pouca gente interessada em causar comoção em uma época onde o “politicamente correto” é a lei.

Até mesmo a palavra “Deus”, salvo erro, foi omitida. No filme, é sempre referido o “Criador”. É a mesma coisa? Quase. Mas a diferença tem impacto.

Enfim, parece-me que é um filme que vale a pena assistir, apesar dos problemas (para mim) mencionados acima. Ao menos é uma oportunidade para reflectir sobre para onde caminha a humanidade... Mas que podia ter sido muito melhor, podia.

Ao pesquisar sobre o filme, acabei encontrando uma HQ/BD feita a partir do primeiro argumento escrito para o filme, o que significa que ela tem várias diferenças para a história contada no cinema. Fiquei curioso, principalmente depois de saber que o artista é o mesmo de “Pride of Bagdah”, que eu, felizmente, tenho aqui (e também recomendo).


terça-feira, 6 de maio de 2014

Crítica à Crítica ao Crítico

Fonte: RyotIRAS (via nerdabordo)
Não é fácil ser criticado. Não importa se a crítica não é feita directamente a você. Tudo aquilo que fizemos errado, ou mal feito, é responsabilidade nossa. Pode ser um texto, uma fotografia, uma pintura, um programa de computador, um trabalho escolar. Não importa. Fomos nós que fizemos. Se não está bom, foi a nossa incompetência em realizar o trabalho proposto.

A crítica vem desnudar a nossa vergonha, muitas vezes escondida de nós, convenientemente, por nós mesmos. Não é fácil assumir perante todos que falhamos.
Mas lá por não ser fácil não significa que temos o direito de sucumbir à tentação de pular ao pescoço do crítico, mesmo que metaforicamente. Não temos. Antes pelo contrário.

Mesmo que a vontade de trucidar aquele que nos desnudou seja tão forte que os olhos sintam um súbito impulso de saltar das órbitas para arrancar aquele sorriso jocoso aos tapas, é preciso conter-se. No fim, seja pertinente ou não, a culpa pela crítica é sua. Você pediu. Você tornou seu trabalho público. Você escolheu a alternativa mais difícil: não desistir. No fundo, você gritou um desafio: “Manda cá essas críticas que eu aguento!”. Agora aguenta.

Claro que não é preciso refazer o trabalho a cada crítica recebida, principalmente se a crítica não trás junto uma explicação. Mas rebater uma crítica, principalmente quando ela não trás junto uma explicação, mostra apenas imaturidade. É dizer que não quer críticas, depois de dizer que as queria.

Ah… Entendo. Você não quer críticas que não venham acompanhadas de uma explicação. Você acha que elas não são construtivas?

Toda crítica, sem excepção, é “construtiva”. Mesmo um “Isso está uma bosta!” é construtivo. Alguém está dizendo que não gostou. O que mais você quer? Ninguém tem obrigação de dizer porque raios não gostou. E nós não temos direito algum de exigir uma explicação. Pensar o contrário é ser infantil, querendo que os outros apontem o caminho a seguir. Pior. É ignorar uma dádiva.

Uma crítica, por mais mordaz e sanguinolenta, por mais mal educada, por mais arrogante que seja, ainda é uma crítica, e críticas, de qualquer espécie, são muito difíceis de conseguir. Para que alguém comente sobre aquilo que você fez, é preciso que essa pessoa tenha dedicado algum tempo a avaliar o seu trabalho. E isso não tem preço. 

Portanto, da próxima vez que você receber uma crítica, agradeça. Não explique se não te perguntaram nada. Principalmente, não descarregue a sua frustração em cima daquele que você pensa que é a causa dela. Foi você que pediu a crítica. Seja adulto. Aceita aquilo que te ofereceram. Depois, com o tempo, com a cabeça fria, pode avaliar se tinham razão ou não.

No fim, seja você mesmo o seu maior crítico. O mais mordaz. O mais sedento de seu sangue. O mais arrogante e irrascível. Nunca fique satisfeito com absolutamente nada que você faz. 

No fundo, você pode sempre fazer melhor, porque nada do que você faça vai alcançar a perfeição.

Se te disserem o contrário, estão mentindo...

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Reflexões sobre o Dia do Trabalho


Encontrei uma excelente reflexão sobre o "Dia do Trabalho" graças à Olívia Maia.
É um texto que merece ser lido e compartilhado, analisado, esmiuçado, estendido, usado.

O texto completo pode ser lido na página do autor, Marcelo Träsel, o träsel/blog.

Fica aqui apenas um excerto.
"O capital mente ao vender a imagem de roupas de grife, carros possantes, casas imensas, férias no exterior e clubes do vinho como luxo. O verdadeiro luxo é dispor de tempo livre para se dedicar à família, à amizade e ao desenvolvimento de atividades de interesse pessoal."
Se você trabalha, ou está em busca de um trabalho, não desperdice a oportunidade de refletir também sobre sua própria realidade... 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

[conto] Noite Estrelada

Noite Estrelada Sobre o Rhone (Vincent Van Gogh, 1888)

“Queriapoderverasestrelasnocéu...”
Preparar!
“Queriapoderverasestrelasnocéu...”
Apontar!
“Queriapoderverasestr...”
Fogo!
...

[conto] João e Maria

- Perdão? O que foi que disse?
- Gostaria de passar, se faz favor

João ainda levou alguns segundos para perceber o que se passava. Estava bloqueando a passagem a uma senhora. Afastou-se desajeitadamente. Observou-a colocar o passe sobre o sensor e a cancela que dava acesso ao Metro abriu-se. Várias pessoas que já formavam uma fila fizeram o mesmo, algumas resmungando sobre a “falta de respeito” do senhor que lhes fazia perder tempo.

Tempo. Quanto tempo ainda tinha? “Alguns minutos”, pensou. Soltou um suspiro cansado, ombros caídos.

- Qualquer coisa é melhor do que isso – Sussurrou para si mesmo.

Esperou que alguém fosse passar a cancela novamente e aproveitou a “boleia”. Não tinha passe.
Desceu as escadas em direção à plataforma, sem prestar muita atenção à sua volta.

Não estava ansioso. Desistira de viver há muito tempo. Apenas não tivera coragem de aceitar isso.
Depressão, disseram-lhe. O que sabem os médicos? Nada. Eles não entendem. Não tem como entender.

Sentia um vazio no peito, tão grande, que por vezes pensava que ia ser tragado e desaparecer. Hoje era exatamente o que queria.

O som do Metro fez-se ouvir. João fechou os olhos. Aproximou-se da faixa amarela que indicava a linha de segurança. Tudo que queria era que seu sofrimento acabasse. Um passo e tudo estaria terminado.

- João?

Abriu os olhos. “Maria?”. Era a voz da Maria. Olhou ao redor. Apenas algumas pessoas esperavam na plataforma. Nenhuma era ela.

O Metro chegou. João ficou ali, parado, pensando em Maria. Já não sentia o vazio no peito. Sentia pontadas, como se alguém trespassasse seu coração com um grande espeto, muito lentamente.

- O senhor está bem?

Um rapaz saído do Metro que acabara de chegar notou sua face pálida. João tremia. Parecia estar prestes a desabar. O estranho ajudou-o a sentar-se em um dos bancos de espera que existiam na plataforma. Após alguns instantes, várias pessoas que vieram no mesmo vagão que o rapaz cercavam João.

- Foi só uma indisposição. Já estou melhor, obrigado

O rapaz ainda mostrou-se um pouco em dúvida, mas notando que a cor já voltava ao senhor que acudira, acabou por ir embora. Os outros seguiram-no.
João esqueceu-se por completo do que tinha ido ali fazer. “Maria”. Era tudo em que pensava.

Ao chegar em casa, encontrou-a escura. O interruptor não funcionava. Acabou por desistir e foi até a cozinha. Abriu gavetas e portas de armários até encontrar o que procurava. Uma pequena garrafa de uísque já pela metade.

Dirigiu-se ao quarto e sentou-se na cama. Por alguns momentos que pareceram uma eternidade, deixou que o vazio em sua mente o protegesse da realidade. Perdeu o emprego. Tantos anos de trabalho jogados fora. Tanto tempo. Tempo. Tempo. Tempo. Seu tempo havia acabado. Sua vida não valia mais a pena. No fundo, sabia que já não havia mais nada para ele aqui. E o aqui que ele sentia já não ser o seu lugar, não se restringia somente às paredes do quarto, ou mesmo aos becos da cidade onde viveu toda a vida e onde passava a maior parte do tempo hoje em dia. Era a própria vida que o asfixiava.

Deixou-se cair na cama. Ficou ali. Imóvel. Esperando que o vazio, único amigo que lhe restava, ocupasse seus pensamentos novamente. Esvaziou a garrafa. Meio embriagado, fechou os olhos e dormiu.

Acordou ainda estava escuro. Podia ver a luz da rua que se esgueirava por entre as frestas da persiana e embatia contra o teto. Deu-se conta do perfume. Um suave aroma a pêssego. “Maria”. Tateou a cama e encontrou sua pele macia. Virou-se e seus olhares cruzaram-se. Ela sorria. Acariciou seu rosto. Beijaram-se. Fizeram amor. Maria adormeceu em seus braços.

Ele tentou manter os olhos abertos. Queria ficar assim para sempre. Queria que nada tivesse mudado. Queria não ser tão covarde. Queria ter dito que a amava.

O uísque falou mais alto. Vencido, acabou por adormecer..

Acordou novamente já o sol ia alto no céu. Maria não estava mais lá. Um silêncio opressivo tomava conta da casa. Sentou-se na beirada da cama, tentando perceber o que tinha acontecido. Viu a garrafa de uísque caída ao lado da cama. Ainda podia sentir o perfume de Maria. Vestiu-se e saiu às pressas dali.

Andou a esmo pelas ruas da cidade. Pensava em Maria sem parar. Sentia que a cada passo o vazio fechava o cerco ao seu coração. Não suportaria outra noite como essa.

Quando deu por si, encontrava-se a meio de uma ponte. Trepou a proteção e passou para o outro lado. Ficou ali, observando o Tejo. De onde estava, o rio parecia tão calmo, tão convidativo.


Ouviu uma sirene ao longe. Dali a pouco a GNR estaria ali. Provavelmente seria a divisão de trânsito. Os motoristas que passavam pela ponte devem ter dado o alerta. Ou talvez as câmeras de vigilância. Conhecia um sujeito que trabalhava lá. Às vezes ele contava histórias do pessoal que parava o carro, abria a porta e saltava. Não lembrou se alguma vez ele chegou a comentar se algum dos que pulou chegou a sobreviver, mas tinha certeza que as chances eram muito pequenas.

Sorriu, divertido. Sentia-se um verdadeiro clichê, prestes a pular de uma ponte. Mas o vazio era insuportável e a isso ele não achava piada.
Sentiu uma pontada no peito. Seus olhos encheram-se das lágrimas que por tanto tempo lutaram para fugir.

- João?

Maria. Sua voz. Seu perfume. Ela achegou-se e abraçou-o pelas costas, de forma carinhosa. João desatou a chorar, de forma convulsiva. O vazio tornou-se tão grande que nada mais importava. Colocou uma mão no bolso e retirou de lá uma aliança, pequena e delicada. Apertou a aliança no punho fechado. “Maria”.

- Perdão Maria. Perdão. Já não suporto mais

Deixou-se cair.

O carro da GNR acabara de encostar, sirenes ligadas.
Os dois policiais não tiveram tempo sequer de sair da viatura. Nada puderam fazer.
Foram testemunhas do vazio que acabou com a vida de João.
As únicas.

[Fim]

GNR – Guarda Nacional Republicana

A primeira versão deste texto foi feita para um pequeno desafio em uma comunidade do Orkut (NEB - Novos Escritores do Brasil), em 2009, salvo erro. Uma versão revisada pelo José Geraldo Gouvêa (Letras Elétricas), foi publicada na revista independente de literatura TEXTURA nº 1, em Novembro de 2010, que pode ser encontrada aqui.

Acho que sou o único ser vivo que possui uma cópia impressa dessa revista...