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segunda-feira, 29 de junho de 2015

[conto] Ser ou não ser...



Um vulto.

O telemóvel caiu fazendo desaparecer o chefe no meio da descompostura. Cerrou os olhos. Ambas as mãos agarraram-se ao volante como se ali tivessem nascido, crescido e petrificado. Os pés, todos eles, tentavam parar o carro, na esperança de que aqui a matemática ainda fosse a mesma e dois fosse mais do que um. O indesejável e inevitável baque seco. Finalmente o silvo dos pneus cessou. A eternidade chegou ao fim duas vezes antes de ganhar coragem para abrir os olhos. Noite. Estrada. Casas mortas à direita. Um bosque à esquerda. Tudo permanecia imóvel como se nada tivesse acontecido. Não fosse o semáforo derramando uma luz vermelha e cansada, apenas o calor lhe faria companhia.

?!

Uma coisa verde ergueu-se lentamente à frente do carro. Dirigiu-se para o lado do motorista e rapidamente deixou de ser apenas uma coisa verde para se transformar em uma coisa verde com um anão por baixo. Este carregava uma pilha de livros velhos. Era dono de uma longa barba branca. Vestia-se a rigor, se você estiver pensando em uma festa de anões de jardim. Aproximou-se da janela aberta e ergueu a coisa verde, que finalmente revelou-se uma cartola quase tão alta quanto o dono. Tirou um pequeno cigarro do emaranhado de cabelos que ali se escondiam e esperou, em vão, que lhe oferecessem lume. Grunhiu. Fez um pequeno gesto que tanto poderia significar um “está bem, deixa lá...” quanto um “foda-se!”. Virou-se e seguiu em direcção ao bosque, desaparecendo na escuridão e devolvendo-o ao silêncio. 

Uma suave batida na janela do passageiro tirou-o do transe.

!!

Um palhaço surgido sabe-se lá de onde começou a chorar copiosamente, ao mesmo tempo em que movia a manivela de um realejo mudo. Um leitão, envergando uma gravata borboleta e com cara de poucos amigos atirava cartões da sorte para a janela. Todos em branco. Sorte? Perguntou. A resposta, involuntária, veio num esgar, e o palhaço foi-se embora para o bosque, ainda em prantos, carregando um porco enfurecido aos guinchos, deixando música onde antes nada havia.

A música acalmou-o e por fim deu-se conta de algo que balouçava-se suavemente à frente do carro, embalado pela suave melodia.
 


Iluminada pelos faróis como se estivesse no maior espectáculo do mundo, uma bailarina começou a dançar como se nada mais houvesse. Seus cabelos castanhos, lisos, chegavam-lhe à cintura, mas preferiam voar, hipnotizando-o. Dançou e dançou até chegar à orla do bosque. Inclinou-se numa vénia. Seu sorriso era a própria luxúria materializada. Fez sinal para que a acompanhasse. Após momentos em que o nada passou a ser a única coisa presente em sua mente, a bailarina suspirou e soprou-lhe um beijo, sumindo pelo bosque, como os outros. 

A música morreu.

O telefone começou a tocar, insistente. Era o chefe. As mãos não conseguiam soltar o volante. O semáforo passou a vermelho. Depois verde. Depois vermelho novamente. 

Permaneceu ali, especado, sem saber se mandava tudo às favas e endoidecia de vez, ou se continuava louco como nunca pensara ser e voltava para sua vida subitamente tão miserável.

domingo, 31 de agosto de 2014

[conto] Sonho de uma manhã de verão

(Fonte: Free Picture)
Iniciou o penoso caminho para a  realidade. Sua mente encontrava-se em um estado de torpor, vagueando por um vórtice de vazios, um sedutor mundo feito de um nada profundo e denso. A cada novo despertar tornava-se mais difícil escapar desse lugar.

Acordou de um sono sem sonhos, deixando-se ficar onde estava: um cobertor puído e mal cheiroso, única proteção contra o frio que  transpirava de forma intensa do chão. Manteve os olhos fechados. Hábito. Se fosse possível enxergar em meio ao breu absoluto que permeava o cômodo, alguém menos atento diria se tratar de um cadáver ressuscitado, não de alguém que acabou de acordar.  Apresentava um semblante sereno. Permanecia imóvel.