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sexta-feira, 16 de maio de 2014

As Batalhas do Castelo



Fechou o livro, apagou a luz e deitou-se de costas. Cruzou os braços atrás da cabeça e ficou a observar o tecto do seu quarto, agora iluminado apenas pela tímida claridade que emanava da rua através da janela aberta. Era irregular, feito de finas ripas pintadas de bege, mais tinta que madeira, graças aos cupins que, se se concentrasse, podia ouvir a mastigar noite adentro.

Sentiu um aperto no peito e uma vontade de chorar invadiu seu coração. Na luta que se seguiu, algumas lágrimas conseguiram fugir-lhe. A dor aumentou, transformando-se em raiva. Pura. Simples. Raiva de tudo e contra todos. Como só a ignorância da simplicidade humana pode criar.

Não compreendia como podíamos ser assim. Mais. Não aceitava. Simplesmente não podia aceitar. O rumo que seguíamos  era óbvio e aterrador. Estava tudo errado. E estar tudo errado era tão avassalador quanto inconcebível. Como podiam eles não enxergar isso?

Adormeceu a tentar imaginar maneiras de salvar-nos a todos, sem perceber que qualquer ideia que tivesse seria também ela inconcebível. Aterradora. Insana.

Adormeceu cheio de esperanças.

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* A imagem associada a este texto é um recorte da imagem da capa de uma das versões do livro "As Batalhas do Castelo", de Domingos Pellegrini (Editora Moderna).

* O título deste texto é uma alusão a esse livro.

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